domingo, 5 de dezembro de 2010

Poesia.

Não vou agüentar. Não, não vou agüentar mais.
Essa vontade de despir-me inteira e
Mostrar aquilo que fará de mim apedrejável.
Então vou. Terei que agüentar.
Sofrer quietinha. Sofrer Poesia.quietinha.
Deixar pra lá essa idéia de que o amor é o meu ofício.
De que meu verso é imprescindível,
e que somente os homens podem amara assim,
Tantas vezes e sem pudores
Sim. Somente os homens são poetas.
Livres. Metafísicos. Sem compromissos.
Eu sou mulher. Punida sempre. Vagabunda. Indecente.
Vou. Vou agüentar.
Pois o que pulsa é a língua portuguesa.
Não a carne vermelha – também língua –
que guardo entre as pernas.
Nem essa mais molhada, dentro da boca.
Não, a maldição veio com os grandes navegadores:
Carrapatos, impetigos, escorbutos e piolhos.
Saudades. Paixão. Saliva. Poesia.
A culpa não é sua, nem minha.
Mas serei eu a que irá arder nas chamas,
Porque bruxos não existem.
O que há no mundo das paixões e erros são putas. Putas. Putas. Putas. Sou um puta.
Serei eu quem morrerá primeiro.
(Fernanda Young)

Pro Choice *



Pró-choice *
*pró escolha
(entenda, ninguém é pró-aborto)

Sei que já é clichê falar de aborto, mas de certa forma é inevitável.
Porque é tão difícil deixar de torná-lo crime? Simples: por que gostam de sentirem donos dos nossos corpos. Claro que há por trás de todo esse jogo de mal gosto uma porção de coisas: educação, igreja, governo... E no final das contas todos estão se lixando para as mulheres, gostam e querem continuar mandando no nosso ventre, nas nossas decisões. A cada dia mais e mais mulheres estão cientes de que ser a favor da descriminalização do aborto não quer dizer que você seja uma assassina uma serial killer em potencial, simplesmente que é uma decisão sóbria, e muito, muito pessoal. De quem é o corpo? De quem são as obrigações? È melhor abortar ou ter um filho passando fome? È melhor abortar ou ver seus sonhos ecoando pelos ares com o choro de uma criança? Quem vai parir afinal de contas? Acho uma covardia que em tempos modernos como esses, a mulher que aborta ainda sofra perseguição, como antigamente na inquisição, são vistas como bruxas que merecem serem queimadas. Uma covardia que ainda hoje mulheres tenham que por sua saúde em risco abortando em lugares clandestinos e muitas vezes com condições precárias. Existem boas clínicas clandestinas de luxo, mas levando em conta a atual situação da maioria das mulheres, sim elas continuam abortando em clínicas precárias, colocando sua vida em risco. Entenda colocando vidas concretas em risco.
Não quero que de uma hora pra outra tu me apóie na causa, aliás, não quero que me apóie particularmente em nada, só quero que olhe para as mulheres e seja mais humano, respeite suas decisões, escolhas, desejos e anseios.
Respeite nossos corpos!
Pela liberdade e autonomia nas escolhas!
Pelo direito de sermos donas de nossos ventres!
Aborto não deve ser crime!

Paternidade?

...A luz nunca está presente aqui, mas quando ela entra pela fresta da porta ela me traz terror, pois sei que novamente serei abusada. Na verdade já me acostumei com a escuridão, quando tudo acaba ela me avisa que ele já se foi. E nela não me posso ver, maltratada, mal cuidada, um objeto de prazer pra mais um monstro dentre tantos por aí, então ela de forma contraditória e covarde me acalma, não posso ver no que ele está me tornando. Não me acostumei com a situação, jamais me acostumaria a viver em um porão escuro e sujo, jamais me adaptaria a escrava sexual nem tampouco sentiria qualquer sentimento bom pelo desgraçado que me mantém prisioneira aqui. Eu sinto ódio, ódio dessa criança na minha barriga, que sei que serei obrigada a ter, e que ela também temerá a luz, ódio desse que tem capacidade de se dizer pai, que me prende os braços e me tapa a boca, que me vira e desvira da maneira que bem entender. Não, não é fácil me proteger, temo morrer, sou fraca e arrogante demais para querer morrer jovem, e não vejo saída, estou cegando-me pelo ódio e desespero. E me dói saber que em algum lugar do mundo a cena se repete que muitas meninas nascem para essa finalidade: prisioneiras. Por hoje vou dormir, e frieza, consigo dormir, tenho sonhado com mulheres livres, caminhando pelas ruas de mãos dadas com suas companheiras, lutando pelas tantas que assim como eu estão condenadas a escuridão, criando sites e se organizando para libertarem as que virão. Nos sonhos eu sou mais que um objeto sexual, mais que um brinquedo ou um animal indefeso enjaulado, nesses sonhos sou apenas uma menina. E elas se importam com isso. Elas me amam;Vou dormir, a barriga pesa, pedir para que não acorde com a luz que entra pela fresta, que sempre me traz horrores. Vou dormir apenas isso, o ódio ainda me cega e a desesperança entristece meus dias.
Maldito homem que se sente meu dono. Malditas condições de vida me deram como mulher. Mas morrerei e nascerei mulher quantas vezes necessário. Pois acredito naquelas que se preocupam comigo. Se eu abrir os olhos verei esse maldito porão.
Mas se fechá-los posso até senti-las, posso ler seus cartazes nas ruas.
Por isso temo morrer, não posso lutar,
mas há aquelas que lutam por mim.